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O que tem virado enfeite na sua vida?

10 de ago.
2 min de leitura

Atualizado: 7 de out.




Sabe aquele livro pegando poeira na cabeceira, a esteira que virou cabide ou o curso online que você comprou e nunca abriu?


Na psicanálise, isso passa longe de ser mera preguiça ou desorganização. É o que Freud chamaria de um sintoma: uma solução de compromisso criada pelo nosso inconsciente para lidar com um conflito interno.


Quando a gente compra algo ou faz um plano, existe ali um desejo genuíno, mas também uma enorme resistência. Mudar de verdade confronta nossas defesas e dá trabalho. Para não encarar a frustração de não agir e, ao mesmo tempo, não abrir mão da fantasia, o inconsciente dá um jeito de conciliar essas duas forças opostas.


O objeto fica ali, parado, servindo como uma ponte entre o que a gente deseja e a nossa incapacidade de bancar esse desejo na prática. Ele ganha um poder mágico de acalmar a ansiedade e tapar uma falta que é inerente a qualquer ser humano.


Ao olhar para a matrícula da academia paga ou para o instrumento encostado no canto, a gente se engana sustentando a ilusão de um Eu idealizado, aquela versão perfeita de nós mesmos que não tem falhas nem limitações. O objeto vira uma garantia fantasiada de que o potencial continua ali, intacto, poupando a gente de encarar a dor de perder essa imagem ideal.


Manter esses enfeites ao nosso redor é, em última análise, recusar o luto. Desapegar do violão ou doar os livros não lidos exige reconhecer que não podemos ser tudo, ter tudo e dar conta de tudo ao mesmo tempo. Enquanto o enfeite continuar ali enfeitando a casa e a mente, a gente prefere viver na ilusão confortante do "um dia eu faço" a encarar a realidade do que a gente realmente é e consegue bancar hoje.


Por isso, vale a pena dar uma pausa agora e olhar em volta. O que está parado aí na sua vida, te encarando em silêncio? Qual é a promessa fantasiada que você insiste em pendurar na parede da sua mente só para não encarar quem você é hoje? Talvez seja a hora de parar de sustentar fantasias que só te cansam e começar a se olhar de verdade, de peito aberto, com o que é possível bancar no aqui e agora.

 
 
 

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